– Sabe o que eu acho um saco
hoje me dia? Ser obrigado, quando for falar diante de um grupo, dizer "todos
e todas"... Ter que ficar enfatizando sempre o gênero feminino em tudo...
– Pior é obrigar a usar o
"x" no lugar das vogais nas palavras... Digo, o Português não tem nem
o gênero neutro! Querem mudar a gramática, mas isso não muda a sociedade!
– Pois é, até parece que o
feminicídio diminuirá com a mudança da linguagem. Ou o preconceito com os trans
ou algo do tipo!
– Né! Que coisa louca!
Esse diálogo pode ofender alguns
ou compactuar com ponto de vistas de outros. Fato é que poucos conseguem
entender o poder da linguagem, ainda mais quando se é o maior beneficiário dos
termos gramaticalmente corretos referente as concordâncias nominais ou
generalizações. Talvez a dificuldade de entender o potencial de mudança social
a partir da linguagem esteja no entendimento do que seria a linguagem e como ela
afeta nossas atitudes.
Lera Boroditsky, professora de
ciências cognitivas da University of California San Diego, afirma que: “Mesmo o
que pode ser considerado aspectos simplórios da linguagem podem ter efeitos
subconscientes de longo alcance sobre como vemos o mundo”. Em algumas línguas,
onde todos os objetos são classificados como masculino ou feminino, a
pesquisadora descobriu que essa classificação realmente influência como as
pessoas percebem o objeto. Através das pesquisas de Boroditsky foi descoberto
que os países que falam mais gêneros em sua linguagem têm menos igualdade de
gênero.7
A linguagem desse modo pode nos
estimular o desenvolvimento de empatia pela situação do outro, ou pelo
contrário ressaltar diferenças e culminar na manutenção do machismo estrutural
e com isso no feminicídio.
Lígia Winter descreve uma
situação a qual a linguagem afetou a interpretação de um caso de feminicídio,
de modo que as vítimas se tornaram culpadas por suas mortes e seus agressores
se tornaram isentos de culpa:
"Nada
parecido foi dito, por exemplo, em 2016, quando a mídia mundial noticiou que duas
jovens argentinas foram assassinadas, após terem sido estupradas, no Equador
enquanto “viajavam sozinhas”. Estavam juntas, uma com a outra, mas as notícias
nos jornais e os comentários em redes sociais reforçavam que viajavam
“sozinhas”, e que por isso eram responsáveis pela violência que sofreram. Um
psicólogo entrevistado chegou a dizer que, por estarem sozinhas, foram
facilitadoras do estupro, mexeram com fogo (2016). Elas eram maiores de idade e
exerciam o direito de transitar, de ocupar os espaços públicos, de viajar. Dois
homens as abordaram, as violentaram e as assassinaram. Foram pegos e
confessaram. Entretanto, as notícias veiculadas não focavam a responsabilidade
desses homens. Nem a da segurança pública, o direito à segurança das mulheres.
Nem mesmo sua liberdade de transitar. A linguagem das notícias responsabilizava
as mulheres pela violência. Enquanto que na leitura de Kehinde imediatamente
nos opomos aos algozes tendo empatia com as vítimas; na leitura das notícias
das jovens argentinas, os criminosos são apagados, sua responsabilidade é esvaziada,
e transferida para as jovens: elas deveriam saber dos riscos. As notícias não
nos produzem desconforto, não provocam o exercício da alteridade. Ao invés
disso, nos colocam no lugar do agressor, calando as vítimas, repetindo a violência."
Discutir a
mudança da linguagem, principalmente referente ao gênero e a inclusão da
"versão feminina" das palavras não se trata de apenas de um processo irritante
do feminismo se fazendo presente. Não é algo chato que nada muda a
realidade...Pelo contrário, trata-se do pontapé inicial de uma grande revolução
cultural. A palavra é expressão de nossas ideias e como descrevemos o mundo ao
nosso redor...Como é possível pensar que a mudança dessas palavras não seria
processo inicial de mudança dessa mesma realidade?
E achar que
não ajuda no combate ao feminicídio? Aí é ser ainda mais limitado em visão
sobre os incontáveis anos que a mulher se viu apagada da história e também dos
textos. A forma como a mulher é caracterizada em um romance, em um filme ou
mesmo em uma reportagem não afetaria como a mulher é vista pela sociedade? Será
que lembrar de dizer o "todas" como se dirigir a um grupo de pessoas
é tão enfadonho por simplesmente levar em consideração a existência de uma
mulher naquele mesmo grupo. Ou é melhor relegar a essa mulher o manto da
generalização, apagando sua voz e individualidade.
O pensar na
linguagem é o despertar para a nossa própria realidade. É também conscientização
de ser oprimido. É valorização de seu "eu". É o início da luta pela
igualdade e pelos seus direitos. Se isso é insuficiente para entender o quão
crucial para o combate ao feminicídio...O problema não é a ignorância sobre o
assunto e sim o medo de perder suas regalias como homem na língua opressora.
Referência:
https://forbes.com.br/carreira/2020/08/como-usar-linguagem-neutra-e-por-que-e-importante/
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332020000200502
https://mulheresnaciencia.com.br/o-papel-da-linguagem-na-violencia-contra-a-mulher-cerceamentos-e-isencoes/
https://claudiamaraviegas.jusbrasil.com.br/artigos/700732347/feminicidio-uma-analise-da-violencia-de-genero-no-brasil

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