Parte 1
O grito cortou a noite que nem
faca afiada. Cortou e enterrou a sua lâmina no coração palpitante de Grete
Sansa.
A mulher, ainda trêmula, mirou as
próprias mãos. Por alguns segundos pensou ver algo... Algo horrendamente insetóide.
Não era nada. Ou era alguma coisa, era apenas as suas mãos. Pequenas, alvas e
levemente trêmulas. De relance observou o seu esposo. O proeminente maestro
dormia em sono profundo que não fora perturbado pelo o grito de angústia de sua
jovem esposa.
Grete levou a mão ao ventre. Era
uma mania que desenvolveu nos últimos dias desde que descobrira que uma vida
crescia ali dentro. Um gesto que devia tranquilizá-la, mas não podia negar que
os pesadelos começaram assim que sua gravidez foi anunciada.
Pesadelos envolvendo insetos-vermes
gigantes.
– Será Gregor a me assombrar? –
questionou o nada em um sussurro aflito. Obviamente não obteve nenhuma resposta
do nada.
– Eu sou feliz.
Levantou a cabeça e encarou a
noite fria e escura.
– Eu sou feliz.
Voltou a repetir com mais convicção.
Tentava afastar tudo aquilo que a afligia.
– Eu sou feliz?
A entonação mudou, mas não parou
para refletir sobre aquilo. Se deitou, a mão repousada sobre o ventre e
adormeceu.
~~*~~*~~
Acordar. Lavar. Cozinhar.
Arrumar. Essa era a rotina. Seu marido, um proeminente maestro, necessitava do
seu submisso e amoroso suporte. Tinham se unido devido a música, afinal Grete
mesmo era uma excelente solista de violino, mas...
– Querido, eu bem que poderia acompanhá-lo
hoje na orquestra...Digo, faz tempo que não toco o meu vio...
– O que disse? – Questionou o
maestro, meio assustado como se tivesse esquecido da presença dela ali ao seu
lado na mesa do café da manhã.
Ela iria reiniciar a sua fala,
mas o seu esposo subitamente se levantou.
– Bem, tenho um bom dia querida. Hoje terei mais
um dia agitado no conservatório, reunião com membros da orquestra. Fico feliz
que tenha desistido desse mundo. Afinal, trata–se de um ambiente bem
estressante e competitivo.
Grete assentiu forçando um
sorriso. Ele saiu dando um rápido aceno.
Agora sozinha na ampla cozinha,
ela se voltou para o jornal abandonado pelo esposo sobre a mesa.
Um grito de horror.
Letras garrafais gritam a notícia
no periódico: "Dois insetos gigante avistados – recompensa pela a captura
e morte de horrendas criaturas".

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